Panorama geral

E AS NOVAS LUZES DA ESPLANADA?

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Iluminação original de Brasília : postes “taco de golfe” com lâmpadas fluorescentes.

Subtítulo: PARA NÃO FALARMOS DE COPA (HOJE)

Os mais atentos perceberam que o Eixo Monumental (EMO) vem ganhando uma nova iluminação pública há algumas semanas, segundo apuramos, fruto de parceria entre a CEB e a empresa Philips. É claro que iluminação pública eficiente em calçadas e vias é sinônimo de conforto e segurança para pedestres e motoristas, e é isso que todos queremos, mas algumas situações na nova iluminação do Eixo Monumental chamaram a atenção por trazerem fortes intervenções na iluminação da Esplanada dos Ministérios após seus 52 anos. Não se trata aqui de crítica pela crítica, mas de contribuição de especialistas em iluminação aos profissionais que, com toda certeza, tiveram a melhor das intenções ao proporem a atualização da iluminação da cidade.

A nova iluminação do Eixo Monumental (EMO) manteve o design dos postes “taco de golfe” e as luminárias foram modernizadas por meio de dispositivos LED, tecnologia avançada que possibilita baixa manutenção e economia de energia da ordem de 50%. Essa solução foi implantada ao longo de todo o meio-fio direito do EMO, desde o seu extremo oeste até a Praça dos Três Poderes, com instalação de luminária LED à meia altura dos postes para reforçar a iluminação de calçadas nas regiões de maior circulação de pessoas. Em alguns trechos ao longo do EMO, como Setor Sudoeste e proximidades do Palácio do Buriti, há uma segunda fileira de postes altos, retos, de concreto, com 4 luminárias, iluminando gramados, calçadas e ciclovias. Em pontos específicos como proximidades da Rodoviária do Plano Piloto também foi adotado esse posteamento alto de uma forma mais dispersa (instalado em 2013) ou no canteiro central do EMO.

PROBLEMAS OBSERVADOS

Apesar de haver uma grande melhoria geral nos níveis de iluminância geral ao longo do Eixo Monumental, alguns pontos do projeto chamaram a atenção quanto à interferências significativas na paisagem da Esplanada dos Ministérios:

1)      Postes altos, retos, de concreto, com quatro luminárias, no gramado leste da Rodoviária (fig.1 e 2)
Apesar de essa região merecer uma boa iluminação, a implantação de postes tão altos em 2013 interferiu fortemente com a visão da Esplanada dos Ministérios a partir da Plataforma Superior da Rodoviária. Há forte ofuscamento de pedestres e motoristas que tentarem observar a Esplanada dos Ministérios nesse local.

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Fig. 1 – Postes altos no gramado leste da Rodoviária interferem com visão da Esplanada dos Ministérios.

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Fig. 2 – Vista dos postes altos no gramado leste da Rodoviária.

2)      Postes altos, retos, de concreto, com duas luminárias, ao longo do canteiro central do Eixo Monumental, no trecho entre a Rodoviária e a Catedral (Fig. 3 e 4).
A iluminação deste posteamento ao longo do meio-fio esquerdo do EMO se sobrepõe à iluminação dos postes LED “taco de golfe” ao longo do meio-fio direito do EMO. Além de questionável, a presença desses postes altos causa importante interferência visual em relação à percepção da Esplanada dos Ministérios e do Congresso Nacional.

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Fig. 3 – Iluminação no canteiro central do EMO se sobrepõe ao posteamento do lado direito e interfere na visão da Esplanada dos Ministérios.

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Fig. 4 – Iluminação dos postes no canteiro central do EMO (à esquerda) sobrepôe-se à dos postes LED “taco de golfe”(à direita)  interferem na Esplanada dos Ministérios.

3)      Postes LED “taco de golfe” em frente ao Palácio do Itamaraty e Palácio da Justiça (fig.5, 6 e 7).
Tratam-se de edificações de caráter escultórico, monumental, ainda que de menor porte frente aos demais edifícios da Esplanada dos Ministérios. Esses prédios localizam-se próximos ao meio-fio do EMO e anteriormente contavam somente com iluminação de caráter cenográfico, a qual se destacava justamente pela ausência de posteamento. Os postes LED instalados ao longo do meio-fio nesses locais (cerca de quatro postes em cada fachada) seguiram à risca o distanciamento padrão adotado na Esplanada dos Ministérios e, sem dúvida, causam  grande interferência na percepção desses dois edifícios. Consideramos um dos maiores problemas da nova iluminação da Esplanada dos Ministérios.

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Fig. 5 – Vista do Palácio do Itamaraty sem a interferência dos postes LED “taco de golfe”.

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Fig. 6 – Palácio do Itamaray com a interferência da nova iluminação instalada recentemente.

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Fig. 7 – Poste LED “taco de golfe” em frente ao Palácio da Justiça

4)      Postes LED “taco de golfe” instalados no meio fio, entre o Congresso Nacional e a Praça dos Três Poderes (fig.8 e 9).
A curva do EMO nos fundos do Congresso Nacional sempre foi um local com pouca iluminação e talvez haja razões de segurança para que se melhore a iluminação do local, contudo a instalação dos postes padrão nessa área causou uma interferência importante na percepção do Congresso Nacional e em relação ao caráter cênico da iluminação das palmeiras imperiais.

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Fig.8 – Iluminação original do Congresso Nacional sem a interferência dos postes LED. (fonte:RBPdesigner)

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Fig.9 – Nova iluminação entre o Congresso Nacional e a Praça dos Três Poderes.

 

Cabe salientar que em 1960 Lúcio Costa encaminhou ao arquiteto Oscar Niemeyer recomendações que deveriam ser adotadas na iluminação pública de Brasília, onde se destaca o seguinte para as imediações da Praça dos Três Poderes:

9- Na Praça dos Três Poderes prevalecerá critério dramático, deliberadamente teatral. Para tanto não haverá posteamento. O procurado efeito será obtido recorrendo-se à iluminação dos próprios edifícios com projectores (flood-light) e do espelho d’água, bem como à iluminação parcial interna do Anexo. Futuramente o fórum de palmeiras imperiaes também deverá ser iluminado com projectores. A sensação será de suspense e serena grandiosidade.


PROPOSIÇÕES

Quanto à situação 1 relatada acima, sugerimos a adoção de posteamento de menor altura, para que seja eliminada a interferência visual percebida a partir da Plataforma Superior da Rodoviária. Quanto à situação 2, sugerimos a supressão total do posteamento ao longo do meio-fio esquerdo do Eixo Monumental, diante da iluminação excessiva no local e das interferências que promove na percepção da Esplanada dos Ministérios.

Quanto às situações 3 e 4 relatadas acima, uma solução que contemplaria a necessidade de iluminar as vias e calçadas em frente ao Palácio do Itamaraty e Palácio da Justiça com interferências mínimas na percepção dessas edificações seria a adoção de dispositivos de iluminação no formato de balizadores de baixa altura (no máximo 50 cm), iluminando vias e calçadas rente ao chão, como na ilustração a seguir:

fonte: percepcao.typepad.com/percepcao/2009/04/guia-projeto-iluminao-de-acesso.html

Segundo levantamos, parece ainda não haver no mercado brasileiro balizadores potentes e de foco dirigido para iluminação de vias públicas e calçadas conforme sugerimos. Dessa maneira, surge um desafio técnico que uma empresa conceituada como a Philips tem todas as condições de solucionar da melhor forma possível, de forma a possibilitar níveis de iluminância adequados e que respeite as peculiaridades de um Patrimônio Mundial, o que seguramente se tornará um case importante para a empresa.

Não se trata aqui de preciosismo quando nos posicionamos quanto a nova iluminação da Esplanada dos Ministérios. É claro que a cidade possui tantas outras demandas mais urgentes e graves, mas se trata de defender uma maior cautela ao se propor interferências na região mais simbólica da cidade que é um Patrimônio Mundial antes que o problema se torne um fato consumado. Um projeto para a iluminação pública em Brasília não deve somente calcular a quantidade ideal de lux, o melhor ângulo de iluminação, o distanciamento de cada poste para se alcançar uma iluminação homogênea e adequada. Aqui é necessário também perceber nuances como não promover interferências significativas na percepção de monumentos e, especialmente, da Esplanada dos Ministérios.

12 pensamentos sobre “E AS NOVAS LUZES DA ESPLANADA?

  1. Estimados Urbanistas por Brasília, Estou totalmente de acordo. observo ainda que a iluminação do Ministério das Relações Exteriores está com iluminação “laranjada”??? par não dizer vermelha. qual o motivo? meus 43 anos de Brasilia sempre foram luzes brancas!
    Maria Augusta
    Mestre em planejamento urbano tese: “Indicadores de Qualidade de Vida Urbana: infra-estrutura urbana das cidades satélites Candangolândia, Metropolitana, Núcleo Bandeirante e Riacho Fundo”. UnB, 1994

  2. Achei bem interessante a matéria. Sempre houve essa preocupação estetica com Brasília, agora se quebrando por falta (talvez) de um profissional competente na área iluminação, ou falta de cominicação entre setores. Mas por outro lado nessa região, ou em toda Brasília, a segurança do pedestre sempre ficou em segundo plano. Nada melhor para um oportunista do que uma péssima iluminação. Uma solução muito simples que acho que pode ser polida foi a utilizada no primeiro ministerio, foram colocados três refletores no topo do edifício que iluminou todo o estacionamento, o legal é que não ofusca, não altera efeitos da fachada, só poderia ser um pouco mais potente. a adoção de iluminação a longa distância não é má ideia (se bem projetada), pode surtir efeitos positivos e eliminar pontinhos de luz na paisagem, que demasiadamente incomoda.

    • Prezada Gerlyanne,
      Concordamos com você. Haveria diversas opções de iluminação para evitar tantas interferências como as que verificamos. Aparentemente não houve a cautela necessária no projeto, mas ainda é tempo de que correções sejam feitas pois acreditamos na idoneidade e capacidade técnica da Philips. Abraços!

  3. Supressão total do posteamento à esqueda no eixo monumental? Vocês tão loucos? Sério pensa cinco minutos sobre o assunto. Melhor. Vai lá. De noite. À pé, de carro não vale. Vai de baú primeiro até a Rodô. Aí desce pelo gramado iluminado com os postes gigantes e vai andando até a Catedral. Pelo canteiro, não vale ir pelo museu tá?

    Concordo que os postes gigantes interferem muito na visualização da esplanada, mas que sugestão deve ser dada para iluminação correta da área logo abaixo da rodoviária com aquela vegetação baixa? Você ter dezenas de pequenos postes alí não iria interferir mais na paisagem do quê a solução atual?

    E outra. Essa sugestão de balizadores é uma piada. Ela cria situações de alto contraste que interferem (e muito) no caminhar noturno, ainda mais alí, na frente do Itamaraty, onde o piso da calçada é feito de blocos entremeados por grama.

    Sério. Vocês precisam sair da frente do computador e dar uma volta pela cidade, já falei, à pé, de carro não vale.

    • Prezado Francisco,
      Entre a Rodoviária e a Catedral temos duas situações. A primeira é da série de postes muito altos que ofuscam qualquer visualização da Esplanada a partir da Plataforma Superior da Rodoviária. O problema poderia ser ao menos minimizado diminuindo a altura desses postes.
      A outra situação é a do posteamento ao longo do meio-fio esquerdo do canteiro central, sentido Catedral. Facilmente se percebe que há sobreposição da iluminação desses postes com a iluminação emitida pelos postes “taco de golfe” do outro lado da avenida. O impacto visual causado por essa opção de projeto não justifica o nível de iluminância alcançado no gramado e, com certeza, haveria outras formas de tratar a questão, garantindo o conforto e a segurança do usuário sem a instalação sem critérios de postes tão altos.
      Não concordamos com a “situação de alto contraste” que você cita caso houvesse substituição dos postes por balizadores na frente do Palácio do Itamaraty, Palácio da Justiça e fundos do Congresso Nacional. A iluminação das calçadas e vias estaria garantida sem tanta interferência com os monumentos dependendo do foco, potência da iluminação e disposição dos elementos. Trata-se de um projeto específico para um problema específico. O que foi feito ali foi generalizar uma solução, o que resultou em equívoco de projeto. De qualquer forma é uma sugestão de projeto e os especialistas têm um desafio em mãos a ser superado com as opções do mercado que, com toda certeza, são melhores do que os postes ali instalados.

  4. Nossa, excelente a análise! Dá para perceber que é totalmente embasada em conhecimentos técnicos e históricos! E não penso ser “preciosismo” – quantas e quantas vezes as reclamações infelizmente só acontecem sobre fatos consumados… é ótimo ver quando a proposta é cortar o mal pela raiz, antes que o errado vire certo, por causa do costume.

    Penso que ninguém critica a presença da luz, mas sim a falta de cuidado do como fazer. Duvido que nas grandes capitais do mundo, Washington, Paris, Moscou, Londres, por exemplo, se eles também não têm o máximo de cuidado, aliando o uso prático da luz ao uso estético/monumental/cenográfico de seus grandes monumentos.

    Parabéns aos Urbanistas Por Brasília!

  5. Discordo plenamente dos balizadores. Eles não garantem o principal objetivo da iluminação pública que é iluminar o ambiente e não apenas a calçada e a rua (oba, não cairei em um buraco!). Os postes nesse caso foram muito bons pois eliminaram a escuridão demasiada na área, e o mesmo vale para os postes no canteiro central, que sempre considerei um lugar perigoso a noite, passo por essa região todos os dias a noite e não vejo nenhuma grande diferença de percepção da escala monumental.

  6. Prezado Luvas, há um problema objetivo a ser resolvido: a nova iluminação causa interferências em locais sensíveis da Esplanada dos Ministérios. A sugestão dos balizadores é uma das opções a serem consideradas. O objetivo da iluminação pública é iluminar calçadas e vias e isso é garantido pela utilização de balizadores, os quais seriam adotados em curtos trechos de no máximo 50 metros em frente a cada edifício.
    Quanto a sua outra colocação, observa-se que no trecho entre a Catedral e o Congresso Nacional os postes “taco de golfe”, do outro lado do EMO, conseguem iluminar boa parte do gramado central, sem a instalação dos postes altos no canteiro central. Observe. A situação é nova, tudo mudou e a escuridão da iluminação anterior não pode ser considerada como parâmetro. Abraços

  7. Concordo com o problema provocado por postes retos e altos em areas tombadas, mas a iluminação pública, na minha opinião tem como principal objetivo a segurança, portanto deve permitir reconhecimento e percepção de possiveis atitudes suspeitas de pessoas, no que os balizadores não são apropriados. Faço mais uma ressalva em relação ao projeto, que é na verdade uma parceria entre o GDF e a CEB, o que não tira da PHILIPS a grandeza de ter ofertado na licitação, um produto de ótima qualidade por um preço competitivo.

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